Quando comecei a atuar no Direito Previdenciário, o mundo era outro. Eu me formei em Direito em 1989, aos 23 anos, com o desejo sincero de exercer a advocacia e construir meu caminho com trabalho, estudo e responsabilidade. Naquele momento, eu ainda não imaginava que aquela escolha me levaria tão longe. Não imaginava que viriam o mestrado, o doutorado, à docência, os livros, o escritório, as viagens, os alunos, os encontros e tantas histórias que, de alguma forma, também passaram a fazer parte da minha.
No início, eu só queria advogar. Comecei minha trajetória ao lado de minha mãe, Sueli e fui entrando, pouco a pouco, em uma área que exigia muito mais do que conhecimento técnico. O Direito Previdenciário me colocou diante de pessoas que chegavam ao escritório cansadas, inseguras, muitas vezes sem entender por que um direito que parecia tão necessário havia sido negado. Eram trabalhadores, viúvas, aposentados, pessoas adoecidas, famílias inteiras tentando encontrar uma resposta em meio a documentos, filas, exigências e incertezas.
Naquela época, atuar no Previdenciário era uma experiência profundamente artesanal. Tudo era físico, presencial e, muitas vezes, imprevisível. Os pedidos precisavam ser feitos na agência do INSS correspondente ao endereço do segurado. Cada agência tinha uma dinâmica própria, um jeito de funcionar, uma exigência diferente. Havia dias em que a rotina começava antes do sol nascer, porque conseguir uma senha de atendimento já era, por si só, uma batalha. Existia até a figura do “fileiro”, alguém que ficava na fila de madrugada para tentar garantir atendimento. Muitas vezes, mesmo com todo esse esforço, voltávamos para casa sem conseguir resolver o problema.
Hoje, a advocacia previdenciária vive uma realidade muito diferente, com sistemas digitais, protocolos eletrônicos, atendimentos virtuais e novas formas de acesso. Isso trouxe avanços importantes, mas também novos desafios. Cada tempo tem as suas dificuldades. O que posso dizer é que viver aquele período me ensinou algo que nunca abandonei: por trás de cada processo existe uma vida esperando uma solução. Foi essa percepção que moldou a minha forma de atuar.
Com o tempo, entendi que a prática não bastava. Eu queria ir além da rotina do escritório. Queria compreender com mais profundidade aquilo que eu fazia todos os dias. Depois de cerca de dez anos de formada, senti a necessidade de estudar de forma mais intensa e me aproximei da vida acadêmica. Frequentei aulas como ouvinte, preparei-me durante um bom tempo e ingressei no mestrado em Direito Previdenciário. Ali, meu olhar mudou. A advocacia me ensinava a resolver problemas concretos; a academia me ensinou a perguntar melhor, a pesquisar, a aprofundar fundamentos e a enxergar o Direito também como construção de pensamento.
Nesse caminho, a aposentadoria especial passou a ocupar um lugar muito importante na minha trajetória. Era uma área complexa, cheia de detalhes, que exigia atenção rigorosa aos documentos e muita habilidade com cálculos. Naquele tempo, não havia sistemas prontos fazendo contagem de tempo. Tudo era feito à mão. A análise era minuciosa, trabalhosa e exigia domínio prático. Talvez por isso eu tenha começado a ser chamada para dar aulas sobre o tema. Eu levava para a sala de aula aquilo que vivia no escritório: casos reais, dificuldades reais e soluções construídas na prática.
Foi assim que descobri a docência. Não como um plano distante, mas como uma consequência natural do que eu já fazia: estudar, organizar o raciocínio e compartilhar conhecimento. Comecei a ensinar cálculos, aposentadoria especial e prática previdenciária. Escrevia na lousa, explicava passo a passo, mostrava como se fazia “na unha”. E, ao perceber que aquilo ajudava outros profissionais, compreendi que ensinar também era uma forma de transformar vidas.
Depois vieram os livros. Em determinado momento, ao organizar materiais, aulas e reflexões, senti que precisava escrever. Reservei uma semana, fui para um hotel, espalhei livros, anotações e referências pelo quarto e mergulhei na escrita. Trabalhava das oito da manhã até tarde da noite. Ao final daquela semana, havia terminado uma obra. Lembro do cuidado, da insegurança e até do medo de perder o arquivo. Enviei por e-mail para várias pessoas, como quem protegia algo muito precioso.
A escrita se tornou uma paixão. Um livro levou a outro, e outro, e muitos outros. Hoje, com mais de 50 obras publicadas, vejo que escrever foi uma das formas mais profundas de organizar minha visão de mundo. Entre essas obras, Dissecando o PPP tem um lugar especial. Há nele muito da minha maneira de pensar, de ensinar e de traduzir temas difíceis sem perder a profundidade. É uma obra que carrega técnica, mas também carrega identidade.
Ao olhar para trás, percebo que a minha carreira nunca foi construída apenas por títulos, processos, aulas ou livros. Ela foi construída por encontros. Pelas pessoas que confiaram em mim. Pelos segurados que me ensinaram, com suas histórias, que o Direito Previdenciário não é apenas uma área jurídica, mas um campo profundamente humano. Pelos alunos que me desafiaram a explicar melhor. Pelos colegas que caminharam comigo. Pela família que sustentou meus passos. Pela mulher que fui em cada fase da vida: mãe, esposa, advogada, professora, empresária, autora e sonhadora incansável.
E lá se vão mais de 37 anos no Direito Previdenciário, muitos desafios, muitas renúncias e muitas conquistas. Nada veio pronto. Cada etapa exigiu coragem, disciplina, fé e amor pelo que faço. E talvez seja isso que mais me emocione hoje: perceber que aquela jovem advogada que só queria advogar acabou construindo uma história muito maior do que imaginava.
Uma história feita de trabalho, estudo, afeto, persistência e propósito. Um olhar para o passado me mostra não apenas a carreira que construí, mas a vida que fui capaz de edificar ao redor dela: minha família, meus sonhos, meus alunos, meus livros, meu escritório, minhas escolhas e todas as pessoas que, de alguma forma, caminharam comigo até aqui.